Gostava de ganhar a lotaria? Tem a certeza?
- Ana Teresa Silva
- 25 de set. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 11 de out. de 2020
Conheça os possíveis riscos e benefícios de se tornar num milionário instantâneo.

Vou começar com uma estatística: em 2015, nos Estados Unidos, foram gastos 70 mil milhões de dólares na lotaria, mais do que o despendido em livros, música, bilhetes de cinema, equipas desportivas e jogos de vídeo somados (Laurie Santos). Por isso, se gostava de ganhar a lotaria, não está sozinho.
Não há dúvida de que o dinheiro é uma força importante na vida das pessoas; de facto,
quase tudo o que se faz requer dinheiro. É um dos temas mais comuns de discussão entre casais, um importante factor no divórcio, um motivo frequente para a mudança de trabalho e uma das principais, se não muitas vezes a principal, consideração para a aceitação de um emprego.
Mas, então, qual será o futuro daqueles que recebem avultadas quantias de um dia para o outro?
Têm sido realizados muitos estudos para tentar responder a esta pergunta, com resultados por vezes contraditórios. Apresento a seguir uma amostra do pior que pode acontecer e do destino mais frequente destes milionários, de acordo com a investigação.
O Pior Cenário
Já aconteceu a muitos vencedores a chamada «maldição da lotaria», com alguns a desperdiçarem as suas fortunas e outros com fins trágicos. Seguem-se 5 exemplos de jogadores, com diferentes antecedentes, cujas vidas ficaram arruinadas após ganharem o jackpot.
Jack Whittaker já era milionário quando recebeu 315 milhões de dólares numa lotaria em West Virgínia em 2002, o maior jackpot ganho até à data por um único jogador. Desde então, o presidente de 55 anos da companhia de construção Diversified Enterprises Construction viu a sua vida repleta de contratempos e tragédia. A mulher deixou-o, lutou contra o vício do álcool e jogo, foi assaltado por diversas vezes, a sua casa ardeu e perdeu uma neta com apenas 17 anos, vítima de overdose, e a filha cerca de 5 anos depois.
«Gostava que tivéssemos rasgado o bilhete.»
«A minha neta está morta por causa do dinheiro»
«Não gosto do que me tornei»
Abraham Shakespeare, um trabalhador ocasional e motorista de pesados dos Estados Unidos, foi assassinado em 2009 com 2 tiros no peito, 3 anos depois de ganhar um jackpot de 30 milhões de dólares. O corpo de Shakespeare foi encontrado debaixo de uma laje de cimento no quintal da casa que DeeDee Moore tinha colocado em nome do namorado. DeeDee Moore, que fez amizade com Shakespeare após este ganhar a lotaria, foi considerada culpada de homicídio em primeiro grau em 2012, encontrando-se a cumprir pena de prisão perpétua.
«Estava melhor falido.»
Quando Billy Bob Harrel, casado e com 3 filhos, ganhou 31 milhões de dólares no jackpot da lotaria do Texas em 1997, estava quase falido e mudava constantemente de trabalhos mal remunerados. Após receber o prémio, despediu-se do emprego na Home Depot, comprou um rancho e várias casas, para ele e para familiares, deu grandes donativos à Igreja e mudou-se com a família para o Havai. Para além da família e amigos, os seus gastos avultados atraíram ainda a atenção de muitos desconhecidos, que o importunavam a exigir donativos, obrigando-o a alterar o número de telefone por diversas vezes. Os seus consumos e empréstimos ficaram fora de controlo e a tensão afectou o casamento já estremecido. O pedido de divórcio da mulher foi a gota de água; o golpe do qual Billy nunca conseguiu recuperar.
Em Maio de 1999, apenas 20 meses após receber o prémio, Billy Bob fechou-se no quarto da sua mansão em Kingwood e suicidou-se com um tiro no peito.
«Ganhar a lotaria foi a pior coisa que alguma vez me aconteceu.»
David Lee Edwards era um criminoso condenado e toxicodependente, que tinha passado cerca de um terço da vida na cadeia quando, em 2001, ganhou 27 milhões no jackpot da Powerball. «Muitas pessoas estão desempregadas. Não têm quase nada. Assim, eu não quero aceitar este dinheiro dizendo que vou comprar mansões e vou comprar carros, vou fazer isto e aquilo. Eu gostaria de aceitá-lo com humildade», afirmou Edward durante a cerimónia de entrega do prémio.
No entanto, e apesar das boas intenções, Edward e a mulher esbanjaram a fortuna em 2 mansões, 1 jato de alta performance, uma frota de automóveis topo de gama, joias e outros itens de luxo e em 2006 estavam falidos. Edward contraiu hepatite por partilhar agulhas e faleceu num hospício em 2013, com 58 anos, sozinho, sem dinheiro e imerso em dívidas.
Donna Mikkin, uma corretora de imóveis de sucesso no Estado de Nova Iorque, classificada entre os 2 % do top de vendas, ganhou 34,5 milhões de dólares na lotaria em 2007. Mikkin considerava-se uma pessoa feliz antes de ganhar e ficou surpreendida com o quão infeliz se tornou. Como ela própria refere, tornou-se obcecada com a forma como estava a ser julgada e percebida, tendo adquirido um diálogo interno maníaco. A vitória levou-a à «falência emocional». Num blog publicado em 2014, Mikkin afirma:
«A maioria de nós pensa que ganhar a lotaria é a realização final. Mas eu descobri que esse não era o caso.»
«A minha vida vida foi sequestrada pela lotaria.»
O que nos Diz a Ciência
A maioria das pessoas pensa que estaria imune aos riscos associados a enriquecer repentinamente e que isso iria resolver os seus problemas e torná-los muito mais felizes. Contudo, essa não parece ser a realidade.
Num conhecido estudo, os investigadores entrevistaram quase 200 pessoas que tinham vencido a lotaria aproximadamente 1 ano antes e um grupo de pessoas que não tinham acertado. O estudo teve 2 resultados principais (David B. Feldman Ph.D., 2019):
Os vencedores da lotaria não reportaram estar mais felizes do que os não vencedores. As emoções positivas associadas à vitória diminuíram rapidamente;
Os premiados afirmaram disfrutar menos das actividades do dia-a-dia, como conversar com amigos ou ver televisão, do que o grupo de controlo. Aparentemente, ganhar a lotaria estabeleceu uma fasquia de tal maneira elevada que, por comparação, os entretenimentos triviais pareciam menos prazerosos.
Outro estudo publicado pelo National Bureau of Economic Research examinou 3362 suecos premiados com pelo menos 100 000 dólares e interrogou-os acerca do seu bem-estar, 5 e 22 anos após ganharem o jackpot. O resultado foi concordante com o estudo descrito anteriormente: a felicidade e saúde mental não mudaram significativamente, mas também não houve prova de que tenha tornado qualquer dos participantes menos feliz. Por outro lado, o Dr. Daniel Cesarini, co-autor do estudo, afirma que «os vencedores de grandes prémios experienciam aumento sustentado na satisfação global com a vida, que persiste por mais de uma década e não mostra evidência de dissipar com o tempo». De acordo com o investigador, o projecto mostrou que os jogadores que ganham avultadas quantias retêm a sua riqueza pelo menos durante uma década, contrariamente à crença popular de que desperdiçam a sua fortuna em pouco tempo. Para além destes estudos, outros chegaram a conclusões similares.
Conclusão
Tem sido realizada muita investigação relativa ao futuro de vencedores da lotaria, em que os participantes são acompanhados ao longo de vários anos. Embora nem sempre os resultados coincidam em todos os aspectos, a pesquisa parece suportar as seguintes conclusões:
No longo termo, a maioria dos premiados regressa ao nível de felicidade que tinha antes de ganhar o jackpot;
Muitos participantes reportam um aumento da satisfação global com a vida que, no entanto, não se reflecte em incremento da felicidade experienciada;
A maior parte dos premiados afirma disfrutar menos das actividades do dia-a-dia;
Embora exemplos da «maldição da lotaria» abundem, com diversos casos documentados de vencedores que morreram vítimas de suicídio ou homicídio ou viram as suas vidas arruinadas, este não é o desfecho mais frequente;
Alguns jogadores, mas não a maioria, desperdiçam a sua fortuna por falta de autocontrolo e capacidade de gestão financeira.



Comentários